Um Pouco de Arquitetura 14#

Casa de madeira, na encosta da Mata Atlântica,
com vista para o mar

Na construção deste refúgio de 153 m², no litoral de São Paulo, nenhuma árvore foi arrancada. A casa que tem estrutura de madeira é leve e aberta para a natureza

Reportagem Deborah Apsan (visual) e Denise Gustavsen (texto) | Design Manoel Vitorino Junior | Fotos Eduardo Pozella | Ilustrações Fabio Flaks

“Como uma mariposa que deseja fcar escondidinha na mata, a casa pousou delicadamente no terreno”, graceja Silvio Sant’Anna, autor deste projeto com Ana Vidal. Essa capacidade singular de mimetizar a vegetação e torná-la invisível a quem passa na rua vem da leveza dos materiais. Apesar de seus 153 m², a morada pesa menos de 2 toneladas – o equivalente a 10% de uma construção similar de alvenaria. Os arquitetos investiram numa estrutura de madeira fechada por vidraças também para não sobrecarregar o lote íngreme e correr risco de deslizamentos. E cuidaram da preservação da mata nativa, a fm de deixar as raízes das árvores segurando o solo, o que também previne desmoronamentos. Por trás dessa conquista hábil do território estava o desejo de integrar a residência ao verde. Apoiada sobre 11 colunas, ela mal toca o chão e ocupa apenas um décimo da área total do lote, de 900 m².

A madeira tem selo verde
A estrutura emprega itaúba benefciada certifcada pelo Cadmadeira (cadastro de empresas responsáveis criado pela secretaria do Meio ambiente do estado de são Paulo) e fornecida pela Zanchet Madeiras, que trabalha com projetos de manejo. Isso signifca que as árvores foram retiradas de maneira controlada nas reservas mantidas pela empresa, como essa de onde vem a itaúba, em Mato grosso, o corte respeita o ciclo mínimo de 30 anos para não desequilibrar o ecossistema.

Planta em sete meses
Para preservar o lote numa colina da serra do Mar, os arquitetos adotaram um sistema construtivo leve e pré-moldado que não forçou o terreno e agilizou a montagem. Resultado: a casa levou sete meses para fcar pronta e prescindiu de canteiro no local. A mão de obra especializada acelerou a empreitada.

Planta integrada
Com dois andares, a morada tem uma confguração livre de barreiras visuais no pavimento de cima, que abriga sala, cozinha e terraços. Há divisórias apenas na área dos quartos. Essa distribuição permitiu explorar melhor a vista da praia a partir de todos os ângulos.

Telhado em arco
Um dos principais pontos do projeto, a cobertura curva foi conquistada com duas vigas laterais formadas por várias lâminas de itaúba coladas e tensionadas até a cola secar. Fixadas por placas metálicas, elas ganharam sobreposição de placas de osb, que, por apresentarem certa fexibilidade, aderiram ao formato curvo. Foram impermeabilizadas com uma manta termoplástica (Alwitra) que deixa a superfície lisa. Aa solução dispensou forro.

Presa às rochas
As colunas de madeira que elevam o refúgio 5 m do solo à frente e 1 m na parte de trás foram parafusadas nas pedras do terreno. A formação rochosa fca cerca de 4 m abaixo da camada de terra. Essa providência garante resistência à fundação do tipo sapata e evita o risco de desmoronamento em períodos de chuvas mais fortes.

Escada da casa é usada pelos vizinhos

Embora camufada, a casa de madeira é famosa entre os surfstas desta praia. Por abrigar uma longa escada de madeira que liga o percurso entre a areia e o alto do morro, tornou-se corredor de passagem de gente bonita e bronzeada sempre com uma prancha debaixo do braço. “Além de comunitária, a escadaria virou divertido ponto de encontro da vizinhança”, diz o arquiteto, satisfeito com o resultado inesperado do projeto. Toda a área principal da construção fca voltada para o leste, em direção à rebentação das ondas mais fortes, as preferidas dos moradores, um casal de irmãos. O módulo com o terraço e o mirante, no entanto, foi rotacionado para o oeste, a fm de oferecer vista privilegiada do pôr do sol atrás das pedras em outro ponto da praia. “Era uma obrigação enquadrar o mar e a esplendorosa visão do sol sumindo”, refete Silvio sobre o ambiente de vidro.


Feita de vidro e itaúba certifcada (Zanchet Madeiras), a casa se mistura ao verde intacto à sua volta. o traçado em curva da cobertura reforça a leveza do desenho. Em balanço, a varanda emprega deck de ipê. 


Deixada à vista, a estrutura de itaúba compõe um desenho forte


Painéis de vidro laminado (8 mm), garantem muita luz natural e a vista panorâmica da praia e das ilhas próximas.


Sofás feitos de patetes são rústicos, mas muito confortáveis


Integrada à sala, a cozinha fca isolada pelo balcão de itaúba, mesma madeira do piso, fnalizado com resina fosca. Pendentes de aço (Osawa) preenchem o pé-direito de 4,90 m.


Bom desempenho e respeito ambiental nortearam as escolhas dos arquitetos, que apostaram também em reúso de água da chuva nas bacias sanitárias e sistema de tratamento de esgoto.


Passarela possibilita circulação externa


Área: 153 m2. Ano do projeto: 2007. Conclusão da obra: 2010. Projeto: Vidal & Sant’Anna Arquitetura. Topografa: Odorico José Rodrigues. Sondagem e fundação: Combase. Estrutura: Carpinteria Estruturas de Madeira. Construção: Joaquim Queiroz de Avelar


A circulação da casa se dá pela escada de madeira posicionada numa das suas laterais. Composta de 63 degraus, ela faz a ligação entre os ambientes dos dois pisos daresidência, além de conectá-la à área externa do terreno e às ruas situadas no cume e no pé do lote.


Deste terraço nos fundos da casa, voltado para as pedras, avista-se o privilegiado pôr do sol.


No corredor externo, uma cobertura de vidro laminado (8 mm) protege da chuva.


Gatinho curte um dos decks que se banha de sol


No nível dos quartos, sob a varanda dos fundos, a área de relax oferece vista plena até em dias chuvosos. Ao manter a casa longe do solo, os arquitetos preservarama madeira da umidade constante.


Moradores amam a praia e a natureza ao redor da casa

Fonte: Casa.abril

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